Às vezes é
irritante quando acontece algo extremamente negativo conosco e aparece alguém a
dizer: não te preocupes, vai ficar tudo
bem, enquanto talvez perdemos alguém que nos é muito querido, ficamos
endividados com uma divida que está acima das nossas capacidades e estamos sem
fé e sem esperança no futuro.
— Não te preocupes (meu amigo), tudo vai dar
certo.
Lá vem de
novo essa frase que todos sabem repetir e lá estamos nós gritando no nosso
interior, (por vezes até exteriorizamos):
— Como! Como Podes Dizer que vai ficar tudo bem
se acabei de perder tudo! Se o meu mundo desabou! Se a minha única solução
parece ser o suicídio, Como! Que sabes tu do futuro, do sofrimento, se estás aí
numa boa tão longe da minha desgraça!?
E não é que
tudo fica bem mesmo, não é que tudo dá “certo”. Não é que esse problema é
ultrapassado ou torna-se suportável após algum tempo.
As
capacidades humanas são incríveis e nós não as usamos na sua totalidade. Se
aquela divida não estava ao alcance das nossas possibilidades, nós vamos nos
esforçar, vamos trabalhar em quantos turnos forem necessários e porque as
coisas mudam algo bom vai surgir no meio desse esforço todo (talvez sejamos
promovidos) e apartir daí já conseguiremos pagar a dívida ou pelo menos acalmar
os credores. Afinal não era impossível.
Se perdemos
o tecto e a família, nós vamos encontrar alojamento em casa de um amigo ou por
baixo do banco de um jardim e vamos aos poucos recuperar a nossa vida, ganhar
um novo tecto e com o tempo uma nova família.
Se nasce
uma criança órfã de pai e mãe e sem nenhuma família, sem ninguém, a vida não
acabou para ela, muita coisa pode acontecer, ela pode vir a ser um famoso
médico, arquiteto, artista, empresário ou pode viver longos anos de luta e
sobrevivência mas também de alegria e felicidade, de muitas amizades e de várias
aventuras até ela morrer de velhice.
E mesmo que
falhemos, que sejamos atirados numa prisão, que tenhamos que viver sem tecto, ou
que tenhamos de viver como mendigos, a vida ainda está ali, apesar da constante
luta pela sobrevivência ainda são possíveis sentimentos e emoções como alegria,
felicidade, gratidão, amor, companheirismo, bravura, honra que tornam a vida
humana um espectáculo maravilhoso.
Estar e
permanecer vivo deve ser a nossa única preocupação, quanto ao resto não se
preocupem, tudo vai dar certo.
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Stélio Inácio
365 Dias de Literatura – Uma Crónica Literária Por Dia
Crónica N° 153
31.12.2011
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