Levaria uma granada por ti


“Eu Levaria uma Granada por Ti”

O que fazer com esse amor que se entrega sem querer saber se é bem vindo, se é chamado, se é correspondido? O que fazer com a situação em que no nosso coração temos o universo por outra pessoa independentemente do que nessa pessoa exista de amor por nós? O que fazer com esse grande vazio na alma que precisa ser preenchido? 


Como é raro esse amor preenchido até ao último espaço do vazio que nele existe, igualado até ao último grau de força que ele possui. Enganam-se os que pensam que ele é uma harmonia, ele é uma guerra. Dois corações que se querem tanto que um quer derrotar o outro e juntar-se completamente com ele. Uma intensidade de amar que nunca cessa e que vai sempre de encontro a uma intensidade de igual força. Duas potências nucleares em confronto num planeta (o corpo humano e a alma – sua atmosfera), que é finito e que está a um triz da não existência. Um amor assim pode matar e é por isso que vivemos a beira dessa grande harmonia, pois uma igualdade tal não deve nem sequer ser almejada, consome de dentro para fora e destrói tudo. Poderíamos dizer com toda a certeza que 99% dos humanos usam apenas 20% da capacidade de amar que tem. De forma que a pessoa mais apaixonada que existe nem se aproxima do poder completo que o amor concentra.

Ser capaz de levar uma granada por alguém, de colocar a mão numa lamina cortante por alguém, são extremos que contrariam a auto preservação que é um imperativo que a natureza dita aos seres vivos, e aí está esse homo sapiens sapiens, ser vivo habitante terrestre, a recusar a sua própria vida, a sua própria existência e a oferecer para saltar em frente de um comboio por um outro ser vivo. Este é o cumulo das desobediências à ordem natural das coisas.

Como pode o coração humano, esse coração imaginário onde ficam todos os nossos sentimentos e emoções, conter tanta intensidade e tanta concentração de amor que consome e destrói todos os outros sentimentos como o medo, o orgulho, a inveja. Como podemos andar por aí transportando essa bomba nuclear dentro do peito que a qualquer momento pode entrar em contagem decrescente, como podemos levar sem hesitar uma granada por alguém totalmente entregues a uma dor e emoção que é muito maior do que o nosso corpo a explodir em mil pedaços.

Stélio Inácio
365 Dias de Literatura – Uma Crónica Literária Por Dia
Crónica N° 26
26.08.2011