
Peça Teatral em 4 Actos
Entram dois personagens, O Psicólogo e o Milionário.
O Psicólogo chama-se Mário,
O Milionário chama-se David.
O cenário é a sala do consultório do psicólogo, ela tem um divã onde o paciente deita-se de costas e atrás uma cadeira onde o psicólogo senta-se, uma estante de livros, mesa de secretária, fina tapeçaria, algumas peças de arte na mesa e espalhadas pela sala. Os dois personagens conversam principalmente sentados nas suas respectivas cadeiras.
Acto I
Amor
Entram David e Mário
Cena 1 = Primeira Sessão
David: É suposto eu sentar-me aqui?
Mário: Sim, faça favor.
(David senta-se no divã e olha para Mário)
Mário: Tem que deitar-se virado para o outro lado.
David: Eu gosto de olhar para as pessoas quando falo com elas.
M: Desculpa-me mas tem mesmo que olhar para o outro lado, faz parte do processo que nós vamos iniciar agora.
D: Tudo bem, directo ao assunto, gosto disso.
M: David…
D: Deixe-me levantar-me e apertar-lhe a mão.
M: Não…
D: Eu insisto.
(David levanta-se e aproxima-se de Mário que levanta-se por sua vez e aperta-lhe a mão enquanto o diálogo prossegue)
D: Eu gosto de sentir as mãos das pessoas com quem faço negócios. Percebe, para criar um laço, uma ligação de confiança.
M: Tem um aperto muito forte Ah! Acho que já podemos…
D: Acalme-se, aprenda isto. Muita gente não sabe mas um aperto de mão diz muito sobre uma pessoa com quem negociamos. Podemos perceber se ele é um charlatão, se é honesto, se vai fazer valer o nosso dinheiro e olha que eu paguei tudo de entrada, portanto eu depositei minha confiança em si…
M: A minha mão é…
D: É o seguinte, eis o que me traz aqui: Eu sou milionário, trimestralmente acrescento alguns milhões de dólares a minha conta pessoal, tenho mais de 50 pessoas a trabalhar para mim, tenho tudo bem organizado, nenhuma preocupação nos negócios, vou trabalhar quando quero, tenho dinheiro para realizar todo o desejo que me apareça, uso as melhores marcas, em vestuário, electrodomésticos, como nos melhores restaurantes, moro no melhor edifício desta cidade, no melhor apartamento, com a melhor vista; conduzo o carro dos meus sonhos, se me apetecesse ir comer um hambúrguer debaixo da torre Eiffel ou da Estátua da Liberdade, iria agora mesmo sem nenhum problema, mas…
M: mas…
D: Mas não estou feliz. Cheguei onde queria chegar, tenho tudo que sempre desejei ter, mas não estou feliz.
M: Percebo.
D: E eu preciso que o senhor arranje isso. Eu quero que o senhor me diga como ser feliz.
M: Tudo bem, sim… Percebo… Bem… Hum…
(David olha fixamente para o psicólogo a espera de uma resposta)
M: Oh! Não está a espera que eu diga-lhe em 5 minutos como ser feliz!
D: Se poder fazer em menos tempo melhor, só preciso de uma fórmula.
M: Hum! Muito engraçado… O quê… O senhor está sério!? Por favor acalme-se, não é assim como as coisas funcionam.
D: Porque não! Disseram-me que o senhor é o melhor no seu campo, e se há uma coisa que a vida me ensinou é que o sucesso vem de trabalhar sempre com os melhores. Há algum tempo atrás percebi que a minha empresa poderia lucrar mais e consultei a melhor equipa de marketing e em duas palavras eles apresentaram-me uma solução, implementei e a partir do mês seguinte o lucro cresceu em 100 porcento. Não sei se estavam enganados mas algumas pessoas disseram-me que o senhor é o melhor no seu ramo.
M: Sr. David, por favor sente-se e vamos iniciar a nossa sessão.
(Sentam-se cada um deles no respectivo lugar)
M: E se eu lhe disser que é feliz. Que pode realizar uma grande quantidade de desejos que 90 porcento das pessoas vive e morre sem nunca poder realizar, que tem saúde, sanidade mental, boa aparência, tem a melhor vista da cidade, conduz um carro que é impossível alguém ver e não parar para admirar, que toda a gente gosta de si porque paga bem, provavelmente dá boas gorjetas nos restaurantes, e toda a gente gostaria de ter o estilo de vida que tem… O que me diria?
D: Eu lhe diria que não sou feliz. Sinto uma solidão imensa, não tenho ninguém na minha vida, se ao menos os meus pais estivessem vivos, aí sim toda esta riqueza valeria a pena. Poderia lhes dar tudo que eu sempre lhes quis dar. Os meus familiares são um bando de preguiçosos que só querem explorar-me. Sempre que me contactam é porque precisam de dinheiro, não tenho amigos, os meus amigos de infância são todos pobres e não consigo manter nenhuma relação com eles, as vezes fica estranho, e outras vezes é como se eles temessem-me.
M: Talvez falte uma mulher na sua vida.
D: Todas as mulheres que eu encontro estão interessadas no meu dinheiro.
M: Todas, isso é impossível!
D: As que não estão não as acho suficientemente interessantes e como eu vou saber se mesmo essas na verdade não estão também atrás do meu dinheiro?
M: Não acha que está a ser demasiado rígido. Na verdade tudo é um jogo de interesses. Muitas vezes apaixonamo-nos por uma mulher interessados apenas pela aparência física dela e pelo desejo de saber como ela é na cama, ou por quão mais linda ela é em relação as outras mulheres que conhecemos, ou seja sem nenhuma ligação emocional. E também há que ter em conta que existem casos registados de pessoas que casam apenas por interesse mas que conseguem ter uma vida completamente normal e até apaixonada com o parceiro milionário. Acabam transportando o amor ao dinheiro, a um amor cada vez mais crescente pela pessoa que proporciona-lhes essa vida rica. Portanto, poderias perfeitamente encontrar uma mulher que a partida estivesse mais interessada pelo teu dinheiro do que por ti, e que futuramente viesse a amar-te de verdade.
D: Sr. Mário, isso não cabe na minha cabeça. Como eu lhe disse, para mim eu só quero o melhor, o genuíno, o original, aquilo que é feito com carinho e perícia. Eu quero uma paixão completamente verdadeira e completamente despida de qualquer interesse, eu quero uma mulher que me amasse mesmo que eu fosse um pedinte de rua.
M: Percebe que o que acabou de dizer é de uma raridade excepcional. Biologicamente a mulher precisa sentir-se segura seja financeiramente, fisicamente, emocionalmente e um pedinte não é um bom candidato a nenhum desses itens.
D: Se não for assim então não serve para mim. Eu quero viver um grande amor, quero uma mulher que seria capaz de morrer por mim. Que me amaria tanto que ela não pudesse viver longe de mim. Eu quero uma mulher que me deseje intensamente, que gostasse tanto de mim que eu sentisse pena dela, que me amasse independentemente de quantos milhões eu tenho na minha conta bancária.
M: E prefere passar as noites sozinho, sem ter com quem rir, sem ter com quem comentar as trivialidades do dia-a-dia porque não consegue encontrar essa mulher?
D: Prefiro.
M: Mas mesmo assim ainda é possível encontrar o seu verdadeiro amor. Talvez conheça alguém que possa confiar, em quem possa reconhecer amor verdadeiro.
D: Garante-me que quando sair daqui vou encontrá-la na esquina.
M: Não!
D: Eu preciso de uma certeza. Eu só quero amar como as pessoas normais. Ter alguém a quem possa chamar meu bebé, meu docinho! Sabe que eu sinto-me muitas vezes descriminado por ser rico. As pessoas não tratam-me com amizade e amor, é como se eu fosse um banco andante. Sempre esperam dinheiro por tudo que façam por mim. E há ainda pessoas que fogem de mim, que me evitam, que afastam-se quando eu subo as escadas, é como se as pessoas temessem que se me pisassem ou sujassem o meu fato eu lhes mandaria matar ou coisa assim. É como se eu estivesse totalmente sozinho, abandonado numa ilha de tesouros.
M: E o prazer, sexo ocasional, prostitutas?
D: Durante algum tempo vivi assim. Impressionava as meninas com o meu carro, a minha riqueza, levava-as para cama, mas no final era só sexo. Quando eu comecei a enriquecer, imaginei um futuro em que eu dormiria com uma mulher diferente todos os dias, mas a verdade é que só levei esse tipo de vida por um mês. Não há nada de tão especial no sexo quando ele não transcende. Eu fartei-me. Todas aquelas moças tinham cabeças ocas, cada uma delas tinha as suas esquisitices e o sexo é tão fácil para elas, quase automático, sem nenhum carinho verdadeiro e sentido e elas descaradamente pediam fortunas por um serviço que quanto mais eu analiso, não vejo nele grande coisa. O que eu sempre quis e procurei em cada uma dessas mulheres era uma companhia; uma companhia honesta, simples e que não valesse em dinheiro por cada segundo que me é dado.
M: E o ser rico, o ser chefe, o gerir a sua empresa. Não o faz feliz?
D: Como! Eu estou rico mas estou sozinho. As pessoas, incluindo os meus familiares tratam-me como uma caixa de ATM, ser chefe é bom mas toda a gente fala nas minhas costas e não de frente comigo. Todos tem medo de perder o seu emprego e gerir a empresa é um simples exercício. Tenho tudo bem estruturado, eu só tenho de fazer contas e acertos aos valores que me são apresentados. Nem gosto de estar no escritório, nem é necessária a minha presença, posso fazer tudo a partir do meu computador de casa.
M: Hoje vamos ficar por aqui, vemo-nos na próxima sessão.
Acto II
Celibato
Cena I = Segunda Sessão
David: Então como posso ser feliz?
Mário: Eu tenho estado a pensar no seu caso e a nossa preocupação imediata é a sua felicidade. O problema é o seguinte, o David vive infeliz porque está sempre a pensar em como é triste a sua vida porque não consegue encontrar ninguém, porque parece-lhe que ninguém lhe tem afeição, então vamos atacar esses pontos e aliviá-lo da sua infelicidade. Tudo em que tem pensado é deprimente, infelizmente está na situação em que está, mas isso não quer dizer que tem de ser miserável. Ninguém deve viver triste toda a vida por uma coisa que lhe falta, devemos sim aproveitar aquilo que temos. Ainda não encontrou o amor da sua vida, paciência. Há muita gente que vive sem amor num celibato involuntário. A partir de hoje eu quero que se assuma como um celibatário involuntário.
D: Percebo.
M: A partir de hoje eu quero que haja como se tivesse vindo até mim e eu o tivesse diagnosticado com uma condição que lhe impede de ter uma mulher, e de que alguém se apaixone por si. Eu estou a dar-lhe agora a triste notícia que o condena a ser solitário, portanto só tem que aceitar e ajustar a sua vida a realidade que eu lhe apresento.
D: Percebo. Quer que eu deixe de pensar em como não consigo encontrar a mulher ideal e em como a minha vida é triste e solitária.
M: Exacto. Sr. David, uma coisa eu sei, o senhor quer ser feliz e tem direito de ser feliz. E veio ter comigo para que eu lhe aliviasse o seu sofrimento. Eu lhe garanto que se seguir a nossa rotina a sua vida vai melhorar em 100 porcento.
D: Isto sim é consultoria.
M: Acredito que vê todos os dias casais apaixonados nas ruas, na televisão, na internet, em todo lado. A partir de hoje não olhe para eles dizendo quem me dera ter isso. Olhe para eles, aceite a sua condição de celibatário e siga em frente, não ligue nenhuma.
D: Como se eu não pertencesse a um mundo onde tal amor fosse possível.
M: Exacto, percebo o seu sorriso, era exactamente isso que precisava. Mas tem um lado negativo e perigoso nessa prática que vai iniciar. Pode se habituar tanto a isso que feche completamente as portas para um verdadeiro amor. Mas mesmo correndo o risco de privar-lhe de viver um grande amor, eu quero arriscar nisso com base na crença de que se esse grande amor chegar, ele será capaz de derrubar essa barreira que vai erguer entre si e as mulheres.
D: Eu vou aplicar isso diariamente. Agora eu sei que sou incapaz de amar e ser amado por causa da minha condição, nasci para viver e morrer sozinho. Só o saber isso já me tira um grande peso.
M: Vou colocar-lhe agora sob hipnose. Inspire, expire, inspire, expire, inspire, expire. A partir de hoje vai se guiar pelas seguintes regras que vou lhe ditar: Mulheres! É tudo que os homens normais percebem e amam e eles são felizes com elas, mas que não lhe diz nada a si. Já sabe o que vai acontecer quando for falar com uma mulher, no fim ela vai decepcioná-lo e só estará interessada na sua fortuna. Prazer! É só uma necessidade fisiológica, chame-lhe número 3. Se sentir necessidade de fazer sexo ou masturbar-se, faço-o. A mulher que utilizou seja ela uma fantasia, ou seja ela real, não passa de um instrumento. David, tu não tens culpa de nada disto. Tentaste encontrar amor mas só conseguiste ver nele interesse e vileza; mas tu tens direito a felicidade e não é o amor que vai te fazer infeliz. E estando sozinho, tu serás o rei do mundo como se estivesses a viver o romance mais intenso, belo e verdadeiro da face da terra, como se tivesses encontrado a tua Julieta. David, levanta-te e vai.
Acto III
Atitude
Cena 1 = Sessão 3
Mário: O que é a felicidade? Um dicionário definiu-a como um estado constante de alegria ou contentamento. Constante significa que não cessa, que não pára. Portanto, para sermos “etimologicamente” felizes teríamos de estar felizes todos os segundos, milissegundos até. Assim sendo a felicidade só pode ser definida por uma atitude. Uma atitude positiva perante a vida e perante a nossa realidade. Acreditas que podes oferecer todos os teus bens, ires viver debaixo de uma ponte e seres feliz! Acreditas que podes ser aquilo que a sociedade chama louco, andares pelado na rua, falares contigo mesmo em voz alta e seres feliz! É tudo uma questão de atitude, da forma como vemos o mundo e como interpretamos a nossa realidade.
David: Mas eu pensei que se eu me tornasse milionário eu seria extremamente feliz, pensei que seria o homem mais feliz do mundo.
M: Vou contar-lhe um segredo: neste consultório, talvez por causa da localização e está bem, admito, por causa do valor que eu cobro, só vem cá gente muito rica, e eu lhe diria que cerca de 70 porcento dos meus clientes são infelizes. São pessoas deprimidas, os adolescentes odeiam os pais, os adultos não compreendem os filhos. Infelicidade no casamento, infelicidade na vida familiar, ódio, raiva, vingança, desejos ilícitos, pura tragédia Grega, esse é o meu prato diário. Estamos a falar de pessoas milionárias a viverem vidas miseráveis porque não tem atitude suficiente para fazer face a realidade em que vivem. Porque uma coisa é certa, ainda que alguém fosse preso por 30 anos numa cela minúscula, com a atitude certa essa pessoa poderia viver uma vida de grande felicidade.
D: O que esta a dizer-me é que eu poderia simplesmente ter ficado em casa a fazer nenhum durante todos estes anos e teria sido feliz.
M: Não. Se ficasse sem fazer nenhum não teria o que comer e acabaria morrendo de fome. A felicidade não tem nada a ver com conforto, com dinheiro ou fama e a atitude de que falamos pressupõe que a pessoa vá atrás das condições mínimas para realizar-se e essas condições variam de pessoa para pessoa, não veja a sua riqueza como uma condição sina qua non para a sua felicidade. E se um dia for a falência! Não seja como aquelas pessoas que preferem suicidar-se a ficar pobres.
D: Se é assim tão fácil ser feliz sem ser rico, eu deveria simplesmente ir gastar toda a minha fortuna.
M: E isso fazia-o feliz?
D: Não.
M: Olhe! A sua fortuna é parte de quem é, e ela é um instrumento ao serviço da sua felicidade e principalmente do seu conforto. O que eu estou a dizer-lhe é que não veja a sua fortuna como algo de outro mundo. Talvez se deixar de lhe dar importância então poderá ter mais amigos, poderá ter vizinhos que não tem medo de si. Eu estou certo de que a imagem que tem passado de si as pessoas, é que é alguém muito poderoso e cheio de dinheiro, é claro que as pessoas vão temê-lo. A forma como veste-se também conta, não precisa mostrar os seus milhões em cada peça de roupa que veste. Eu estou a dizer-lhe isto para ajudá-lo a construir esse novo David, feliz e aberto para o mundo e é isso que precisa ser para ser feliz.
D: O que está a dizer-me é que eu poderia abandonar esta minha vida arranjar um emprego como entregador de pizza que ganha o suficiente para pagar o aluguer de casa e as refeições e ainda conseguir levar uma vida extremamente feliz. Essa possibilidade é irritante porque ela vem-me dizer que eu não sou nada especial e eu trabalhei dia e noite sem descanso para chegar onde cheguei.
M: A verdade é que hoje um simples entregador de pizza tem acesso a bens e serviços e a uma qualidade de vida que os mais ricos reis não tinham a 500 anos atrás. O próprio conceito de riqueza é relativo. Não seja escravo do conceito de rico ou pobre. Não seja escravo da sua riqueza, o que deve preocupar-lhe é a sua felicidade. Acredite em mim, há quem esforça-se mais do que os outros, torna-se milionário e vive infeliz por toda a vida.
D: Percebo.
M: Mas dito tudo isso, é importante lembrar-lhe uma coisa: há uma grande utilidade na riqueza, ela permite evitar o desconforto.
D: Posso ser feliz num autocarro cheio de gente ou num descapotável com AC ligado, mas é mais confortável ser feliz no descapotável.
M: Exacto.
Acto IV
Entretenimento
Cena 1 = Sessão 4
Mário: Tudo está nas coisas da vida, não só as pequenas, não só as grandes. Existo, logo sou feliz, é uma máxima aceitável.
David: A felicidade é simplesmente existir.
M: A maioria das pessoas só percebe isso depois de passar por uma experiência traumática: sobreviver a uma queda de avião, a um assalto à mão armada, a uma doença mortífera. A vida é bela e se olharmos no fundo é a única coisa que conhecemos neste mundo abismal. Não me espantaria nada que toda a ciência compilada do mundo não passasse de uma gota num oceano.
D: O que está a dizer é que a felicidade está em aproveitar todas as coisas. O nascer do sol, um sorriso…
M: Tudo até as coisas más. Tudo que sentimos e respiramos.
D: Tudo que está a nossa volta.
M: São 5000 anos de entretenimento e saber. Desde o antigo Egipto que nós temos documentado a arte e o saber das pessoas que viveram antes de nós. A bíblia, as tragédias gregas, a arte greco-romana, as várias civilizações do mundo, a história das nações. E a maioria dessas coisas ao nosso rápido alcance através de livros, da televisão e principalmente da internet. Obras de génios como Dante, Rembrandt, Picasso, Mozart, Beethoven, Shakespeare, o melhor da arte. Podemos ver um quadro que levou Da Vinci anos a pintar e a perfeccionar com toda comodidade e sem sair de casa através da internet, ou ouvir uma obra prima que Beethoven corrigiu mil vezes até ele achar que está perfeita tocada para nós por toda uma orquestra através do Youtube. E não só arte. Há um canal internacional de Televisão que tem como slogan, “100 anos de entretenimento”. A televisão, esse grande centro de entretenimento. Quantas obras-primas do cinema e quantos programas televisivos foram feitos até hoje. Siga uma dessas listas, 100 melhores livros segundo o Times, 100 melhores filmes segundo o imdb, visita alguns museus, ou as 7 maravilhas do mundo, participa de um festival de música clássica, cinema, pintura, arte, lê! Existe neste mundo entretenimento que não acaba e com a tua riqueza tu podes usufruir de todo ele. É um facto que quando recordamos a nossa vida, o que deixa memórias mais marcantes não são relógios de marca, ou fatos bonitos, mas experiências, arte, viagens, espectáculos. Participa deste mundo, cultiva uma paixão por um desporto, por uma actividade, salta de pára-quedas, pilota um avião, cria uma fundação, ajuda as pessoas, recebe e dá.
D: Não entendo nada de música clássica, de livros, de pintura ou arquitectura.
M: O que há para entender!? Todos os artistas prestaram homenagem e mostraram gratidão por este mundo, pela felicidade que é viver, pelo maravilhoso que é existir. E mesmo quando demonstravam tristeza, sentimentos arrebatadores ou desespero, fizeram-no de tal modo que ver essas representações é uma forma de conhecermos melhor a nós mesmos e ao mundo que nos rodeia.
D: Agora que falaste tudo isso percebo como posso ser feliz. É incrivelmente fácil e faz sentido. Há tanta coisa boa por esse mundo fora, 5000 anos de entretenimento! Quantos livros eu ainda não li, quantos espectáculos eu ainda não vi, quanta coisa boa eu ainda não descobri. Quanta história existe por esse mundo fora, e só de lembrar que eu perdia meu tempo a sentir-me triste enquanto poderia estar a viver! O senhor fez-me sentir bem comigo mesmo e com a minha solidão. Mudou a minha atitude em relação a vida e as coisas que me acontecem, deu-me uma lição de vida que eu acho que nunca poderei lhe pagar. Eu vou agora mesmo, vou viver.
M: Ainda temos algumas sessões.
D: Obrigado Doutor, obrigado. Curou-me, nunca senti-me tão feliz.
(David sai)
M: A vida lhe espera. E um dia ele vai encontrar o amor ou o amor vai encontrar-se com ele. Uma boa consulta deveras, e é esta a minha felicidade: fazer os outros felizes. Vou tirar o resto do dia para gozar o maravilhoso que é existir…
(Enquanto abandona a cena vai dizendo)
M: Talvez um passeio ao jardim, ou uma tarde ao lado da minha filha, ou uma caminhada até a casa…
Stélio Inácio
Sr. Psicólogo, Diga-me como Ser Feliz.
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